domingo, 9 de maio de 2010

Um pouquinho de Saint-Exupéry



" A terra ensina-nos mais a nosso respeito do que todos os livros. Porque nos resiste. O homem descobre-se quando se mede com obstáculo. Mas, para alcançar, precisa de uma ferramenta. Precisa de uma plaina ou de uma charrua. O camponês, na sua faina, vai arrancando a pouco e pouco alguns segredos à natureza, e a verdade que liberta é universal. Do mesmo modo, o avião, utensílio das linhas aéreas envolve o homem em todos os velhos problemas.
Tenho sempre diante dos olhos a imagem da minha primeira npoite de voo na Argentina, uma noite escura em que cintilavam isoladas, como estrelas, as raras luzes dispersas na planície.
Cada uma assinalava, neste mar de trevas, o milagre de uma consciência. Neste lar, lia-se, refletia-se, entrava-se em confidências. Neste outro, talvez, procurava-se sondar o espaço, alguém se consumia em cálculos sobre a nebulosa de Andrómeda. Ali amava-se. De longe em longe, brilhavam estas luzes no campo, reclamando o seu alimento.Até as mais discretas, as do poeta, do mestre-escola, do carpinteiro. Mas, no meio destas estrelas vivas, quantas janelas fechadas, quantas estrelas apagadas, quantos homens adormecidos...
É importante que se procure reunir. è importante que se tente comunicar com algumas destas luzes que brilham de longe em longe no campo."

James Turrell encontra Saint-Exupéry no céu!!!!!











Oi Gente!!!!

Tá chegando a minha vez.... No próximo dia 12, irei falar sobre o mundialmente conhecido James Turrell, o " Escultor da Luz".
Este artista americano, tem a sua obra espalhada um pouco pelo mundo todo: no Whitney Museum (NY), The Museum of Modern Art (NY), The Stedelijk Museum (NED), The Pasadena Art Museum (EUA), The Museum of Contemporary Art (LA), no Israel Museum, no Mito Arts Foundation (JPN), só para citar alguns exemplos.
Turrell, tambem já foi distinguido com o prestigiado prémio do programa da MacArthur Foundation Fellowship, um programa que apoia artistas e profissionais que demonstram grande capacidade criativa nas mais diversas areas artísticas.
Bom, já deu pra perceber o porquê do mundialmente famoso. Agora vamos passar para o que realmente interessa: em que consiste o trabalho de James Turrell?
Em 1960, alguns artistas da California começaram a dar grande importância à precepção visual dos seus trabalhos artísticos. A unidade deste movimento, foi aquele tipo de coisa que ninguém consegue explicar, mas que todo mundo ja viu acontecer ou soube que aconteceu. Artistas explorando o mesmo tema, procurando o mesmo fim, sem nenhuma comunicação prévia... E imaginem só quem é tido como o grande percursor desse "mood".... James Turrell!!! Isto porque a arte californiana andava meio perdida, e este novo "mood" abriu portas para o movimento que ficou conhecido como "Light and Space".
Porém, para Turrell não existiu um movimento, nunca houve uma organização ou uma coesão entre os artistas. O que havia, era apenas a coincidência do interesse comum pela percepção visual. Partilhavam dessas mesmas ideias artistas como Larry Bell e Eric Orr que utilizavam elementos ritualísticos e se aproximavam de Yves Klein. Já Michael Asher e Bruce Nauman se interessavam mais pelo estilo conceptual. E ainda tinha aqueles que estavam mesmo ligados à percepção visual em si como Robert Irwin, Douglas Wheeler e Maria Nordman.
É, foi assim que tuuuudo começou. A partir daqui, o que podemos observar no trabalho de James Turrell é a exploração latente da fisicalidade da luz.
A sua primeira exposição foi no Pasedena Art Museum, em 1967 - "Projection of Piece".
Para se preparar para essa primeira exposição, adquiriu o prédio de um antigo hotel em Ocean Park, o Mendota Hotel. Fez dali o seu atelier, o seu espaço para expôr os seus trabalhos, ganhando assim total liberdade e independência das instituições culturais. James Turrell vai se afastando cada vez mais do que pode ser chamado de mundo oficial das artes.
Com a sua própria galeria, vamos observando nas várias exposições que se seguem, que era difícil encontrar uma forma de vender as suas obras. Aliás, um termo mais adequado seria chamar essas obras de estructuras.
A produção artística de James Turrell é intensa e já soma quase 200 exposições individuais e em grupo pelo mundo todo. Podemos categorizar o seu trabalho em 4 diferentes vertentes: a exploração da paisagem natural (Land Art, Roden Crater); a exploração da fisicalidade da luz solar (Skyspaces Series); instalações indoor com a projecção de luz artificial e as "perception cells" - obras que eram estructuras individuais móveis usadas para estabelecer "experiências auto-reflexivas".
Para a apresentação, escolhi a série de trabalhos "Skyspaces", que desde 1970 Turrel vem desenvolvendo nos mais diversos ambientes. Estes espaços, são salas em que o tecto é recortado de forma geometrica, ora retangular ora circular, e o que contemplamos é o céu e a sua imagem projectada no chão. O que realmente interessa para Turrel é a experiência da percepção da luz, algo que não pode ser concebido por palavras...
E é aqui, no céu, que se dá o grande encontro de James Turrell e Saint-Exupéry. Um encontro entre o jovem Turrel e o livro "Wind, Sand and Stars" ou "Terra dos Homens". Os dois artistas possuem em comum o gosto pelo céu, pela aviação e algumas coisinhas mais. P'ra conferir na próxima quarta. Até lá!!!

Juliana Ono nº 35160

Bibliografia:

Exupéry, Saint. Terra dos Homens. Portugal. Publicações Europa América;

Igliori, Paola. Entrails, Heads & Tails. New York. Rizoli International Publications, 1992;

Adcock, Craig. James Turrell: The Art of Light and Space. University of California Press, 1990.

Sites:

http://www.pbs.org/art21/artists/turrell/

http://www.guggenheim.org/new-york/collections/collection-online/show-full/bio/?artist_name=James%20Turrell&page=1&f=Name&cr=1

http://www.scottsdalepublicart.org/collection/knightrise.php

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Walter De Maria & Sophia de Mello Breyner Andresen

Walter De Maria,
The New York Earth Room (1977)
141 Wooster Street, NY

250 cubic yards of earth (197 cubic meters)
3,600 square feet of floor space (335 square meters)
22 inch depth of material (56 centimeters)
weight: 280,000 lbs. (127, 300 kilos)


Walter De Maria nasceu no dia 1 de Outubro de 1935 em Albany, California. Estudou História e Arte em Berkeley, na University of California (1953-59). Entre 1959-60 organizou nessa Universidade e também na California School of Art (S.Francisco) uma série de happenings (forma de expressão teatral que surge no final dos anos 50 e início de 60). Em 1960 vai viver para Nova Iorque onde três anos depois realiza a sua primeira exposição individual. Foi baterista dos Velvet Underground em 1965, banda que "nasceu" do atelier de Andy Warhol da década de 60, The Factory (que era também um ponto de encontro de pintores, músicos e outros artistas) e actuou no Exploding Plastic Inevitable (66-67), um evento organizado também por Warhol.
Anterior ao The New York Earth Room (1977), existiram outras duas instalações: uma primeira em Munique (1968) e uma segunda em Darmstadt, no Hessisches Landesmuseum (1974).


Cidade

Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inultimente gasta,
Saber que existe o mar e as praias nuas,
Montanhas sem nome e planícies mais vastas
Que o mais vasto desejo,
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes, e não vejo
Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.

Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Poesia (1944)


Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) é um dos nomes mais importantes entre os poetas contemporâneos. De origem dinamarquesa, pelo lado paterno, passou a sua infância na quinta do Campo Alegre (actualmente Jardim Botânico do Porto), no seio de uma família aristocrática. A adolescência foi passada entre o Porto e Lisboa. Em Lisboa frequentou o Curso de Filologia Clássica e após o casamento com o advogado Francisco Sousa Tavares, fixou-se nesta cidade. Em 1964 recebeu o Grande Prémio de Poesia, da Associação Portuguesa de Escritores pelo seu Livro Sexto (1962). Sobre a sua poesia, Sophia disse ser "(...) a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema não fala de uma vida ideal mas sim de uma vida concreta (...)". (1)


Relação entre o poema e a instalação

No poema, o sujeito poético vê a cidade como um lugar vil onde se sente aprisionado ("E eu estou em ti fechada e apenas vejo/ Os muros e as paredes") e onde sente que a sua vida lhe é roubada ("Saber que tomas em ti a minha vida"). As paredes e muros à sua volta impedem-no de ver "o crescer do mar" e "o mudar das luas". A cidade surge como ideia de exílio não só do corpo físico como também do corpo espiritual ("E que arrastas pela sombra das paredes/ A minha alma"). O mar, as ondas, as praias, as montanhas, as planícies e as florestas são evocações de imagens da natureza.
Nova Iorque é a cidade que nunca dorme, cidade inquieta ("vaivém sem paz das ruas") e toda ela repleta de muros e paredes nos edifícios que se erguem imponentes. The New York Earth Room é uma instalação num apartamento "habitado" por terra fértil. O cheiro intenso do solo e a luz que entra pelas janelas faz-nos por momentos esquecer que estamos dentro de um apartamento em Nova Iorque e podemos imaginar-nos no meio da natureza, deitados na terra e com o sol a bater-nos na cara. No poema de Sophia há uma clara oposição entre o espaço urbano e o espaço natural e De Maria parece jogar com essa oposição na procura de uma espécie de convívio entre ambos no seu The New York Earth Room.


Bibliografia:

- Andresen, Sophia de Mello Breyner. Obra Poética I. Lisboa. Caminho, 1999. (1)
- Andresen, Sophia de Mello Breyner. Obra Poética III. Lisboa. Caminho, 1999.
- Naylor, Colin (ed.). Contemporary Artists. Chicago and London. St James Press, 1989.
- Phaidon Press (eds.). Phaidon Dictionary of Twentieth-Century Art. London. Phaidon, 1973

Web:
- http://artwelove.com/venue/-id/ca2d742d
- http://www.diaart.org/sites/main/earthroom
- http://pt.wikipedia.org/wiki/Sofia_de_Melo_Breyner
- http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2009/05/19/AR2009051903443.html
- http://tate.org.uk/collections/glossary/definition.jsp?entryId=131
- http://en.wikipedia.org/wiki/The_Factory

Raquel Correia
nº34379

Robert Smithson & William Burroughs

Robert Smithson
Spiral Jetty, April 1970
Great Salt Lake, Utah
Black rock, salt, earth, red water (algae)
3 1/2 x 15 x 1500 feet
Estate of Robert Smithson / Licensed by VAGA, New York, NY Image courtesy James Cohan Gallery, New York Collection: DIA Center for the Arts, New York
Photo: Gianfranco Gorgoni


Robert Smithson (1938-1973)

Smithson iniciou-se no meio artístico como pintor onde a temática do corpo estava bem presente mas após um interregno de três anos, abandona as considerações ao corpo e interessa-se mais por entropia, procura relacionar a matemática com a arte. O conceito de entropia no discurso matemático, quando aprofundado, é tão filosófico como a arte. Esse era o fascínio de Smithson. Aquela energia que não era controlada e que sempre ocorria, fruto do tempo com repercussões no espaço. Smithson previu as alterações do nível das águas e a sua obra esteve já várias vezes submersa mas isso foi o que permitiu as alterações de cores que acontecem frequentemente, como reacção natural dos fenómenos da natureza.
A Spiral Jetty tem cerca de 6 toneladas de pedra de basalto preto e terra, em forma de espiral com um diâmetro de 1500 pés, saída de uma montanha para um lago.

A Spiral Jetty é possivelmente a mais popular obra de Land Art.
Land Art é um movimento artístico que surge na década de 60 no Minimalismo e na arte conceptual. A ideia era fazer com que a arte saísse das galerias e dos museus, literalmente, como crítica ao contexto socioeconómico que circundava o meio artístico. Quem quisesse ver a obra teria de se deslocar até ela. No caso de Spiral Jetty o percurso era bem duro. No entanto, os trabalhos de Land Art são de dimensão espiritual, uma vez que, a experiência do contacto com a obra não ocorre apenas no campo visual, a experiência de estar na própria obra, de a explorar fisicamente produz um efeito determinante na interpretação que se obtêm e que se realiza no campo sensorial.

Smithson escolhe Rozel Point como local para a sua escultura depois de observar a cor da água que era cor-de-rosa, por causa das algas que ali cresciam e pelo efeito que teria combinada com os cristais de sal. Foi deliberada a sua intenção em interagir com a natureza sem a colocar em risco. Ele era também um ambientalista e as suas preocupações ecológicas faziam parte da sua concepção artística. As suas motivações iam desde a cosmologia, ao pós-industrial, antigas civilizações, pré-história e formas geológicas. O seu interesse residia em matérias que perssistiram ao longo dos tempos, tais como a lama, a lava dos vulcões, as rochas e até o sal. Esta matéria que outrora existiu é a mesma que conhecemos hoje, resistiu ao que nenhum homem ainda conseguiu, ao tempo. Essa matéria, alvo do fascínio de Smithson é o que constitui grande parte do nosso planeta. É o corpo da Terra. O corpo que Smithson utiliza nesta fase, é a matéria que constitui o planeta. A sua intervenção pode ser entendida como um adorno, uma forma bela. Alguns sugerem que a forma em espiral se deve à influência da literatura de ficção científica de J. G. Ballard.

Smithson gostava de que as suas obras se fossem alterando com o passar do tempo e adorava que essas transformações fossem visiveis.

“O tamanho determina um objecto, mas a escala determina a arte. Uma fissura num muro, se olhada em termos de escala e não de tamanho, poderia ser chamada de Grand Canyon” Robert Smithson


Obra literária
Thanksgiving Prayer, William Burroughs

To John Dillinger and hope he is still alive.
Thanksgiving Day November 28 1986"

Thanks for the wild turkey and
the passenger pigeons, destined
to be shat out through wholesome
American guts.
Thanks for a continent to despoil
and poison.
Thanks for Indians to provide a
modicum of challenge and
danger.
Thanks for vast herds of bison to
kill and skin leaving the
carcasses to rot.
Thanks for bounties on wolves
and coyotes.
Thanks for the American dream,
To vulgarize and to falsify until
the bare lies shine through.
Thanks for the KKK.
For nigger-killin' lawmen,
feelin' their notches.
For decent church-goin' women,
with their mean, pinched, bitter,
evil faces.
Thanks for "Kill a Queer for
Christ" stickers.
Thanks for laboratory AIDS.
Thanks for Prohibition and the
war against drugs.
Thanks for a country where
nobody's allowed to mind the
own business.
Thanks for a nation of finks.
Yes, thanks for all the
memories-- all right let's see
your arms!
You always were a headache and
you always were a bore.
Thanks for the last and greatest
betrayal of the last and greatest
of human dreams.

Reflexão

Neste poema de W.Burroughs está presente o espírito crítico partilhado por Smithson ainda que manifestado difentemente. O agradecimento, profundamente irónico, de Burroughs pelo envenenamento do continente segue a linha de raciocínio de Smithson na escolha do local para a Spiral Jetty, já que este estudou vários locais inóspitos nos arredores de Nova Jersey, zonas industrias com marcas visiveis no terreno desde a desflorestação até à poluição das águas. A critica social no poema pode ser entendido como uma espiral que sendo o problema, alberga também a solução e é repetindo os ciclos que os podemos perceber. A relação que que estabeleço entre a espiral “negativa” de Burroughs e a espiral “positiva” de Smithson, é de complementariedade.. Um leva-nos a para um percurso descendente mas com o qual temos de nos confrontar para conhecer a realidade e o outro, Smithson, leva-nos de onde Burroughs nos deixou, num percurso em ascenção que no entanto tem como base a rudeza, do lugar onde a Spiral Jetty foi concebida, em tudo semelhante à rudeza do poema de Burroughs.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Richard Serra e José Régio


Betwixt The Torus and the Sphere
wheatherproof steel, three spherical sections, three torus sections
(360,7 x 1143 x 810,3 cm)


Betwixt The Torus and the Sphere (detail), 2001
Photo by Dirk Reinartz


Cântico Negro

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
(…)
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
(…)

José Régio


Richard Serra (1939 - ), é um escultor americano, associado à arte minimalista, que nasceu em São Francisco da Califórnia e que desde cedo revelou-se um artista que buscava a originalidade e recusava os convencionalismos. Começou por utilizar materiais como o chumbo derretido (influenciado pela técnica de “dripping” de Pollock), borracha e luzes néon. Mas foi com as suas esculturas em grande escala, obras que desafiam a força da gravidade e os limites da engenharia, que Serra se tornou polémico.
Estas esculturas, em aço oxidado pelo tempo, são concebidas para sítios específicos, criando diálogos com cenários arquitectónicos particulares, urbanos ou mesmo com a paisagem. Têm ainda a capacidade de redefinir o espaço e a percepção que o espectador tem dele. Ao analisar as forças gravitacionais da escultura, o artista estabelece essa relação com o espaço e as pessoas.
Estas esculturas convidam a entrar e apelam aos sentidos do espectador, proporcionando uma experiência principalmente física.
Com estas obras, Richard Serra, pretende que as pessoas pensem, parem e reflictam sobre a forma como a escultura as afecta ou afectou, com elas, promove o cruzamento entre a fisicalidade do espaço, a natureza da escultura e o corpo do homem.

José Régio (1901-1969), pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira, natural de Vila do Conde, foi professor, poeta, romancista, dramaturgo, ensaísta e crítico, entre outras actividades de carácter literário e artístico.
Foi um dos fundadores da revista Presença, que marcou o segundo modernismo português e do qual foi o principal impulsionador e ideólogo. A sua obra reflecte sobre problemas relativos ao conflito entre Deus e o Homem, o indivíduo e a sociedade, analisando a problemática da solidão e das relações humanas.
Régio, teve uma participação activa na vida pública e politica. Manteve-se sempre firme e frontal nos seus ideais socialistas, apesar do regime repressivo da época. Durante o Estado Novo, quando vigorava o regime político autoritário e corporativista em Portugal (1933 – 1974), viu mesmo o seu romance, Jogo da Cabra Cega, ser proibido pela censura, por conter referência a registos pulsionais e a questões de carácter edipiano.

Reflexão

CAMINHOS
A escultura de Richard Serra convida a entrar, a percorrer caminhos. Apela ao sentido mais físico do homem, ao confrontá-lo com peças de aço enferrujado de grandes dimensões, a ponto de o espectador se sentir insignificante. Evoca o sublime ao inspirar, pela noção de grandeza, sensações como temor, opressão, sufoco. Traça percursos, interiores e exteriores, que o artista determinou, induzindo os corpos a percorrê-los e a tirarem dessa experiência uma mediação entre o corpo e o espaço. A obra escultórica apresenta-se assim, como fonte de energia que impele os sentidos e atrai os corpos para o seu interior.
O poema de Régio, sugere algo oposto. Há uma imposição, uma recusa em seguir a vontade de outrem. Sugere uma determinação de carácter, uma vontade de seguir o seu instinto. Alguém que quer seguir o seu próprio caminho, sem elos nem amarras que o possam impedir de ser livre criador. Propõe a negação ao convite de percorrer caminhos instituídos ou convencionados, que lhe são apresentados por outros, para seguir o seu próprio percurso, aquele em que acredita.
Ao analisar estas duas obras, a escultórica e a literária, imediatamente me ocorre a palavra “caminhos”, como ponto de união ou como conceito comum que as interliga. Caminhos que atraem e repelem, percursos que o homem aceita ou recusa fazer.
O homem, o artista, o poeta. Todos percorrem caminhos, idealizados ou não, mais ou menos concretizados. Caminhos que rumam à felicidade, ao prazer, ao desespero, à loucura, ao triunfo, que marcam o individuo e o caracterizam. A vida é como um jogo que impõe escolhas, caminhos a percorrer e eis que sem esperar, a pergunta surge:
“ Qual deles irei escolher?”


Bibliografia

FLORÊNCIO, Violante, Ensaio: Jogos edipianos em “Jogo da Cabra Cega", Revista Colóquio/Letras. n.º 140/141, Abril-Setembro, Edição e propriedade da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1996, p. 82-88.

NUNES, Paulo Simões, Arte e Teoria. Revista do Mestrado em Teorias da Arte – nº 2”, FBAUL, Lisboa, 2001, p. 92-105.

CRIMP, Douglas, Sobre as Ruínas do Museu, Edição Martins Fontes, S. Paulo, 2005.

Catálogo: Primeira Exposição – “Diálogo sobre a Arte Contemporânea na Europa”, CAM - Fundação Calouste Gulbenkian, 1985.

NOVAIS, Isabel Cadete, Herdeiros de José Régio, Antologia Poética: Não Vou Por Aí!, Quasi Edições, Vila Nova de Famalicão, Março 2001.


Sitiografia

http://cvc.instituto-camoes.pt/conhecer/exposicoes-virtuais/jose-regio-e-os-mundos-em-que-viveu.html

http://www.astormentas.com/biografia.aspx?t=autor&id=Jos%c3%a9%20R%c3%a9gio

http://www.geira.pt/cmjoseregio/

http://coloquio.gulbenkian.pt/bib/sirius.exe/issueContentDisplay?n=140&p=82&o=p

http://www.ubu.com/historical/serra/index.html

http://www.moma.org/interactives/exhibitions/2007/serra/flash.html

http://www.sculpture.org/documents/scmag02/oct02/serra/serra.shtml

http://www.guggenheimcollection.org/site/artist_bio_144A.html

http://www.gagosian.com/artists/richard-serra/

http://www.egodesign.ca/en/article.php?article_id=100&page=4

www.flickr.com/photos/89056025@N00/1360954280/

www.flickr.com/photos/89056025@N00/1360954280/

artchitecture.skynetblogs.be/post/3650322/rse...

Youtube – Richard Serra talks with Charlie Rose




Iolanda Batista – nº 37683

On Vaudeville ICA

História de Arte online

Consultem o site The Art Story para uma viagem sobre movimentos, críticos, artistas... um projecto que começou em Fevereiro de 2009 e vale a pena seguir.